SETEMBRO - MÊS DA BÍBLIA
“A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo”. (Constituição Dogmática Dei Verbum nº 21)
A palavra grega Bíblia deriva do grego bíblos ou bíblion (βίβλιον) que significa "rolo" ou "livro". São ao todo setenta e três os livros bíblicos considerados canônicos pela Igreja Católica Apostólica Romana , sendo 46 livros do Antigo Testamento e 27 do Novo. O cânon da Bíblia Católica contém 7 livros a mais no Antigo Testamento comparativamente com as Bíblias usadas pelas religiões cristãs não católicas e pelo Judaísmo.
Os diversos livros que compõem as Sagradas Escrituras foram escritos basicamente em três idiomas diferentes: o hebraico, o grego e o aramaico. Com exceção dos livros denominados deuterocanônicos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (Ben Sirac ou Sirácida) e Baruc, todo o Primeiro Testamento foi escrito em hebraico (hebraico consonantal). Existem ainda adições aos livros de Ester e Daniel, e a alguns capítulos do livro de Daniel, os quais originalmente foram redigidos em aramaico. Em grego comum, além dos já referidos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, foram escritos praticamente todos os livros do Novo Testamento.
Calcula-se que a Septuaginta (ou tradução dos Setenta), a primeira tradução da Bíblia, foi feita entre 200 a 300 anos antes de Cristo, esta tradução realizada pelos chamados setenta sábios, visava, principalmente, atender os judeus que viviam fora dos territórios do antigo Israel e que não compreendiam mais a língua hebraica.
Segundo os estudiosos, a formação da Bíblia situa-se no período histórico compreendido entre 1100 a.C. ou 1200 a.C. a 100 d.C, sendo considerado o Cântico de Débora, que se encontra no livro dos Juizes (Jz, 5), o mais antigo escrito bíblico.
A parte mais antiga da Bíblia, no início, foi transmitida oralmente nas reuniões que havia nos santuários, prevalecendo neste tempo, os relatos dos acontecimentos do deserto do Sinai, da aliança de Deus com o povo. Mas, o interesse manifestado pelos jovens em conhecer o que havia acontecido antes disto, levou à composição das histórias dos Patriarcas e ainda a história da criação do mundo. Podendo-se dizer que estes relatos são um retrospecto didático histórico feito a partir do Cântico de Débora.
Como a transmissão oral acontecia em santuários diversos, este fato ensejou a existência de pequenas diferenças na catequese do norte e na do sul, decorrendo daí duas tradições: a JAVISTA - Deus era tratado sempre por Javé e ELOISTA, porque Deus era tratado como Elohim.
A tradição oral perdurou até os tempos de Davi, quando foram redigidos os textos da tradição javista; meio século depois, apareceram os escritos eloista. Por volta de 721 a.C., na época, da divisão dos reinos, muitos sacerdotes do norte fugiram para o sul , e a partir de então, as duas tradições foram compiladas num só escrito.
Além, destas tradições, há ainda a DEUTERONOMISTA, encontrada casualmente em 622 a. C. por pedreiros, que trabalhavam num templo, e, também a SACERDOTAL, nova compilação das catequeses antigas de Israel, datada do século VI a.C. Ao final as quatro tradições combinadas entre si compuseram o Pentateuco da Bíblia atual. Mas, a partir de Josué, a tradição continuou oral, para ser escrita somente por volta de 550 a.C.
A princípio, os escritos do Novo Testamento não foram elaborados com a finalidade de serem acrescentados à Bíblia. No tempo de Cristo e dos Apóstolos, o livro sagrado era apenas o Antigo Testamento. As pregações do próprio Jesus Cristo basearam-se nos textos vétero-testamentários.
Após a morte de Cristo, a pregação dos Apóstolos formou uma nova tradição. Mas, diante do grande número de comunidades que se formaram a partir do anúncio da Boa Nova, e com a aceitação de estrangeiros nestas e nas novas comunidades, a mensagem precisou ser escrita, traduzida e adaptada.
A palavra de Jesus Cristo só começou a ser escrita há aproximadamente 40 anos após a sua morte. O primeiro evangelho a ser escrito, o de São Marcos, data dos anos 60 ou 70 d.C.; os de São Lucas e São Mateus, são de 70 ou 80; já o Evangelho de São João só foi escrito em torno do ano 100 d.C.
As cartas do apóstolo Paulo eram Cartas Abertas endereçadas a uma determinada comunidade, e deviam ser lidas em público; há menção a esse respeito na Primeira Carta aos Tessalonicenses (I Tes 5,27). Já as Epistolas Católicas (universais), são chamadas assim por se destinarem à Igreja em geral, e não a uma comunidade específica, como as Cartas Paulinas.
O livro dos Atos dos Apóstolos pode ser considerado a continuação do terceiro Evangelho, pois também foi escrito por Lucas. E o Apocalipse de São .João, livro com estilo próprio, foi o último a ser acrescentado.
No século IV (no ano 325 d. C), a Igreja se reuniu em Concilio na cidade de Nicéia, o qual, dentre outros, tinha o condão de estabelecer o "cânon", ou a lista de livros sagrados considerados autênticos. Neste Concilio, os livros foram estudados, estabelecendo-se então a ordem ainda hoje conservada. Embora, houvesse muitos livros que os judeus não aceitavam, os Santos Padres da Igreja ponderaram os prós e contras e definiram a lista que foi aprovada.
O cânon da Bíblia, ao qual nada pode ser acrescentado, condensa a Revelação de Deus na história, a qual aconteceu de forma gradual conforme a evolução do homem, isso significa que pela palavra da Sagrada Escritura se pode conhecer a salvação consumada na pessoa de Jesus Cristo. Porém, não se pode pensar a Palavra de Deus como algo estático e distante, porque o agir salvífico de Deus é um diálogo constante entre o Criador/Salvador e a criatura, o que dá a possibilidade para que o texto sagrado em cada época abra novas possibilidades de compreensão e conhecimento.
Toda essa riqueza contida na Sagrada Escritura, por uma série de motivos, esteve por um certo tempo distante da maioria dos fiéis. Felizmente, a partir da metade do século passado a Palavra foi como que devolvida ao povo, e com o Concílio Vaticano II abriu-se um novo horizonte para reflexão sobre Deus e a vida da Igreja fundada nos escritos bíblicos, houve, pode-se dizer, uma recuperação da dignidade da Escritura pela Constituição Dogmática Dei Verbum.
As diretrizes conciliares são no sentido de valorizar a leitura da Palavra de Deus, tanto e principalmente na liturgia, como na oração, na pregação, na teologia e na vida cotidiana do cristão. A Dei Verbum afirma o valor semelhante da Palavra e do Corpo de Cristo na liturgia, ressaltando que a graça recebida nos sacramentos mantém a todos sob a lei e os encaminha em direção à Palavra de Deus, há uma vinculação e complementaridade no ouvir a Palavra de Deus e receber a graça através dos Sacramentos e as obras de misericórdia.
A Palavra de Deus é fonte primeira de inspiração da vida espiritual da comunidade e da missão da Igreja. Assim para que se possa ser missionário e discípulo de Jesus Cristo, conforme recomenda a 5ª Conferência do Episcopado Latino Americano é necessário “alimentar-nos da Palavra, para ser servos da palavra na tarefa da evangelização...”
Diante das conquistas da Igreja no âmbito da Animação Bíblica, O Santo Padre convoca para os dias 05 a 26 de outubro de 2008 o Sínodo dos Bispos com o tema "A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja". O Texto "lineamenta" na sua introdução afirma que o "homem contemporâneo mostra de tantas maneiras que tem uma grande necessidade de ouvir Deus e falar com Ele. Nota-se, entre os cristãos uma abertura apaixonada para a Palavra de Deus como fonte de vida e graça de encontro do homem com o Senhor".
Destaca ainda que "é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da Lectio Divina, que permite colher no texto bíblico a Palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência"..."mediante a utilização também dos novos métodos, cuidadosamente ponderados" para "a adquirir familiaridade com a Bíblia, a tê-la ao alcance da mão, para ser uma bússola a indicar a estrada a seguir".
Assim, aproveitando o mês de Setembro como o mês dedicado pela Igreja à Bíblia e, tendo em vista o tema do Sínodo dos Bispos programado para o mês de Outubro, parece recomendável uma íntima e profunda aproximação da Palavra de Deus, que em outras palavras é aproximar-se do próprio Cristo.
Pedro Luiz de Araújo (Coordenador da Pastoral Familiar)
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