VOCAÇÕES: Fruto do Amor e da Missão da Família Cristã.
O mês de agosto é dedicado às vocações. Assim é que a Igreja, durante todo esse mês celebra as várias vocações cristãs, as quais são um inescusável chamado que Deus faz a todos os batizados, tornando-os verdadeiros discípulos e missionários, comprometidos com a construção do Reino da Salvação, através da escuta, do anúncio e, principalmente, da prática da Palavra de Deus.
O primeiro Domingo do mês de Agosto, a partir da festa de São João Maria Vianney, é dedicado à vocação sacerdotal; no dia 10 deste mês (dia de São Lourenço) comemora-se a vocação diaconal; no segundo Domingo, normalmente dia dedicado aos pais, homenageia-se a vocação matrimonial; o terceiro Domingo é o dia das Vocações Religiosas e; no quarto Domingo celebra-se a vocação de todos os leigos comprometidos com a propagação da mensagem do Senhor.
A vocação para os ministérios ordenados deve e merece ocupar especial atenção dos fiéis, principalmente durante este mês, por serem elas indispensáveis para a essência da Igreja, porém não se pode esquecer que é no seio das famílias cristãs que brotam, não somente essa mas todas as vocações. Podendo-se dizer que o matrimônio é a matriz vocacional da Igreja.
A Família que gera vocações é aquela que no Concílio Vaticano II é chamada justamente como “A Igreja Doméstica”. Paulo VI recorda que “em cada família cristã deveriam encontrar-se os diversos aspectos da Igreja inteira. Por outras palavras, a família, como a Igreja, tem por dever ser um espaço onde o Evangelho é transmitido e donde o Evangelho irradia” (Evangelii Nuntiandi, 71).
Nesta esteira e vislumbrando a missão evangelizadora das famílias na sociedade, diz-se que os lares cristãos têm um duplo apostolado. Um intra família, onde, como finalidade própria do matrimônio, ensina-se e aprende-se o amor fraterno, o perdão, a oração e a oferta da própria vida em prol dos membros da comunidade familiar, representado principalmente pela abertura à procriação, pela educação dos filhos, pelo diálogo e o respeito mútuo entre os cônjuges e destes para com a prole. E, um outro extra família, no qual alguns cônjuges, conscientes de sua missão, experimentam intensa e plenamente o desejo de comunicar a outros casais a sua experiência. São os próprios esposos que assim se tornam apóstolos e guias de outros esposos. Essa postura da família cristã, sem dúvida, incentiva o surgimento de novas vocações.
Hoje, mais que nunca, o mundo carece de famílias que acolham o próprio Jesus e vivam a Sua Palavra, cuja força é capaz de transformar pessoas e mesmo famílias inteiras. Diante dos projetos pagãos e individualistas da sociedade pós moderna, com seus ídolos com interior de barro, uma ética utilitarista e uma moral relativista, a Igreja hoje necessita de um referencial verdadeiro. E ser referência no mundo é ser seta a indicar o caminho: o rumo certo a seguir e a maneira correta de agir, de ser e de educar. Existe uma necessidade urgente de homens e mulheres que, sem egoísmo e reconhecendo no amor verdadeiro o valor da vida e da família como transmissora e guardiã desta vida, tragam para fora esses valores em si e em outras famílias.
Como em outras épocas na história e hoje mais gravemente, a família atravessa uma crise de identidade, querendo ser o que não é. A família é ontologicamente uma instituição divina, portanto perfeita e imutável em si mesma, por isso a solução não é mudar a família mas corrigir a rota seguida por ela e resgatar suas origens, como já fizera o próprio Cristo em resposta ao malicioso questionamento farisaico sobre a origem da família e o relacionamento entre os cônjuges: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?[...] É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim (Mt 19, 4-5.8). A resposta de Jesus, quanto a manutenção da estrutura fundamental da família, vale e é atual neste começo de século XXI, a qual, hoje, deve ser dada pela própria família aos neo fariseus que propõem novas modalidades de uniões, propriedades e finalidades à instituição familiar.
As palavras de João Paulo II, também nos conduzem por esse caminho: “Família: torna-te aquilo que és” (Familiaris Consortio 17). O saudoso Papa exorta as famílias para que assumam o seu lugar no mundo, e assim em 2003, no IV Encontro Mundial das Famílias, volta a conclamar as famílias no seu discurso: “Queridas famílias cristãs, anunciai com alegria ao mundo inteiro o tesouro maravilhoso de que sois portadoras enquanto igrejas domésticas! Esposos cristãos, na vossa comunhão de vida e amor, na vossa mútua entrega e no acolhimento generoso dos filhos, sede em Cristo luz do mundo! O Senhor pede-vos para serdes cada dia uma lâmpada que não fica escondida, mas é colocada ‘em cima do velador e assim alumia a todos os que estão em casa’ (Mt 5, 15)”.
A busca de viver como luz do mundo, como modelo, é a missão de testemunho a todos os homens e mulheres, que se uniram pelo sacramento do matrimônio, aos jovens que buscam sentido para sua existência e a todos que, vivendo em família, desconhecem a graça da vida sacramental. E, é no modelo dos modelos de família, a Sagrada Família de Nazaré – imagem mais próxima da “Família Trinitária”, que se deve buscar a inspiração para as nossas ações espirituais e pastorais. Assim modelada pelo eminente, a família cristã optará pelo caminho da sua missão de Igreja doméstica. Em primeiro lugar será uma família “discípula”: ouvinte da Palavra, meditativa, orante, contemplativa, adoradora e eucarística; para depois, ser uma família “missionária”, que anuncia com alegria e entusiasmo a Boa-nova do amor de Deus a toda família humana.
Inequivocamente, é no exemplo deste modelo de família, que Deus busca fazer as suas vocações, para que cada um, segundo seus dons e carismas, colabore na construção do Reino do Amor.
Pedro Luiz de Araújo – Coordenador da Pastoral Familiar.
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