Dra. ZILDA ARNS, Interação de Fé e Vida.


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"O trabalho social precisa de mobilização das forças. Cada um colabora com aquilo que sabe fazer ou com o que tem para oferecer. Deste modo, fortalece-se o tecido que sustenta a ação e cada um sente que é uma célula de transformação...". 
        Zilda Arns Neumann era a 12ª criança das 13 que tiveram o casal de imigrantes alemães Gabriel Arns e Helena Steiner. Ela nasceu na cidade de Furquilhinha, no interior de Santa Catarina, em 25 de Agosto de 1934. Casou-se em 26 de dezembro de 1959 com Aloísio Bruno Neumann (1931-1978), com quem teve seis filhos: Marcelo (morto três dias após o parto), Rubens, Nelson, Heloísa, Rogério e Sílvia (que morreu em 2003 num acidente automobilístico). Viúva desde 1978, era ainda avó de nove netos.
       Sua formação começa em Forquilhinha, SC e em 1959 termina o curso de Medicina, em Curitiba. Parte então para suas especializações, que envolvem desde a Educação Física, a cursos de Pediatria Social, encaminhado-se então a outros cursos de aperfeiçoamento, aprofundando-se, principalmente em saúde pública, pediatria e sanitarismo.
        Inicia sua vida profissional como Médica Pediatra do Hospital de Crianças Cezar Pernetta, em Curitiba/PR, onde permanece até 1964. A sua prática diária como médica pediatra do Hospital de Crianças César Pernetta, e, mais tarde, como diretora de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, teve como suporte teórico as seguintes especializações:

     A sua experiência fez com que, em 1979, fosse a coordenadora do Ano Internacional da Criança no Paraná, evento apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e, em 1980, fosse convidada a coordenar a campanha de vacinação Sabin, para combater a primeira epidemia de poliomielite, que começou em União da Vitória, no Paraná, criando um método próprio, depois adotado pelo Ministério da Saúde.
        Em 1983, a pedido da CNBB, criou a Pastoral da Criança juntamente com o presidente da CNBB, dom Geraldo Majella, Cardeal Agnelo, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, que, à época, era Arcebispo de Londrina. No mesmo ano, deu início à experiência a partir de um projeto-piloto em Florestópolis, Paraná. Após vinte e cinco anos, a pastoral acompanhou 1.816.261 crianças menores de seis anos e 1.407.743 de famílias pobres em 4.060 municípios brasileiros. Neste período, mais de 261.962 voluntários levaram solidariedade e conhecimento sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres, criando condições para que elas se tornem protagonistas de sua própria transformação social. A eficiência da Pastoral da Criança é reconhecida internacionalmente, estando presente em países da África como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau; da Ásia:Timor Leste e Filipinas; e da América Latina: Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México.
       A Dra. Zilda Arns entendia e ensinava que a melhor forma de combater a maior parte das doenças de fácil prevenção e a marginalização das crianças era através da educação, e desenvolveu uma metodologia própria para a multiplicação do conhecimento e da solidariedade, que consiste em três instrumentos fundamentais: a visita domiciliar às famílias; o Dia do Peso, também chamado de Dia da Celebração da Vida e;  a Reunião Mensal para Avaliação e Reflexão.
        Em 2004, recebeu da CNBB outra missão semelhante: fundar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Atualmente mais de cem mil idosos são acompanhados mensalmente por doze mil voluntários de 579 municípios de 141 dioceses de 25 estados brasileiros.
        Ultimamente dividia seu tempo entre os compromissos como coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e a participação como representante titular da CNBB no Conselho Nacional de Saúde, e como membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
        Pela sua atuação e em reconhecimento ao seu trabalho recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, como o “Prêmio Internacional em Administração Sanitária”, da Organização Panamericana de Saúde; “Personalidade Brasileira de Destaque”, do UNICEF; ”Prêmio Humanitário”, do Lions Club Internacional; “Comenda da Ordem Nacional do Mérito Educativo”, outorgada pelo Presidente da República; “Medalha de Direitos Humanos”, da B’nai B’rith do Brasil-Comunidade Judaica Internacional; “Destaque Comunitário”, da Federação Israelita do Paraná; “Prêmio Franz de Castro Holzwarthde 2000”, Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil/SP; “Prêmio USP de Direitos Humanos”, da Universidade de São Paulo; “Prêmio Mulher 2001”, da Agência Nacional de Telecomunicações; Prêmio Heroína da Saúde Pública das Américas, da Organização Panamericana de Saúde; Título de “Dr. Honoris Causa”, da Universidade Extremo Sul Catarinense; Título de “Dr.Honoris Causa”, da Universidade Federal do Paraná; Diploma Mulher-Cidadã Carlota Pereira de Queirós e outros como cidadã honorária de diversos Estados e Municípios brasileiros.

        Apesar de toda a formação acadêmica e dos merecidos prêmios que a Coordenadora Internacional da Pastoral da Criança recebeu, o mais importante é o exemplo que ela deixou de interação entre fé e vida,  de como a Igreja em geral, e o cristão em particular, devem enfrentar os novos desafios do mundo de hoje, de viver e transmitir a fé. Ela definitivamente foi uma pessoa que colocou em prática o Evangelho do Reino de Deus anunciado por Jesus de Nazaré, cujo objetivo principal é ter a vida protegida de modo incondicional, desejo expresso pelo próprio Salvador em João 10,10: “Eu vim para que todos e todas tenham vida, e tenham vida em abundância”. A Dra. Zilda tinha bem claro que para realização deste Reino, cujo caminho de sua definitiva concretização inicia-se aqui e agora, requer uma atitude de serviço, diálogo e anúncio, buscando promover a dignidade da pessoa humana, renovar a comunidade, formando o povo de Deus, e participando da construção de uma sociedade justa e solidária (cf  Objetivo Geral da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil). Por isso baseava sua ação pastoral na solidariedade humana explicitada no Evangelho, como no caso da narração do milagre da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas (Jo 6:1-15) e no assumir dos deveres de discípulo comprometido com a dor dos irmãos excluídos, conforme descrito em Mateus, 14,17: “Dai-lhes vós mesmo de comer”.

       Diante de uma vida tão frutuosa e das palavras de D. Paulo Evaristo Arns: “Não se pode perder a esperança”, quando da notícia da morte de sua irmã - essa cristã exemplar, só nos resta elevar a Deus nossas orações: “Concedei-nos, Senhor, a sabedoria que inspirastes à vossa filha ZILDA, para que, seguindo seu exemplo de fidelidade, nos dediquemos ao vosso serviço, e vos agrademos pela fé e pelas obras”.

por Pedro Luiz de Araújo