A INICIAÇÃO CRISTÃ
“A iniciação cristã é um desafio que devemos encarar com decisão, com coragem e criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido pobre e fragmentada. Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo, convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora” (DA 287).
Com esta interpelação, Aparecida, nos apresenta uma resposta clara e objetiva para levarmos adiante este desafio. Desta forma a CNBB em sua 47ª. Assembléia Geral, realizada em 2009, nomeou uma Comissão exclusiva para tratar desta etapa tão séria da evangelização catequética.
O tema Iniciação, tão enfatizado no DA, não é novo na Igreja. Vem desde as origens do cristianismo, e recebeu nos séculos III e V, uma estruturação específica, o Catecumenato. Considerado ao longo dos séculos como um modelo privilegiado para o processo de Iniciação à Vida Cristã, por ser uma iniciativa da Igreja, e para toda a Igreja, o Catecumenato não se restringe ao âmbito de algum grupo, movimento ou pastoral.
Para compreender e colocar em prática a Iniciação Cristã, com inspiração catecumenal, é de fundamental importância o RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), publicado em 1972, com aprovação do então Papa Paulo VI.
O RICA obedece ao que o Concílio Vaticano II, pede em Christus Dominus, Sacrosanctum Concilium e em Ad Gentes, a respeito da retomada, com as devidas adaptações, do Catecumenato dos primórdios da Igreja.
No decorrer dos séculos, porém, a Iniciação foi se limitando à preparação aos Sacramentos da Iniciação Cristã (Batismo, Eucaristia e Confirmação) assim chamados, pois introduziam (iniciavam) as pessoas na vida sacramental. Tal preparação foi se reduzindo a uma síntese doutrinal, embasada no estilo tradicional de catecismo, pressupondo a vivência cristã na família e na sociedade, marcadas, então, pelo cristianismo.
Mas o mundo mudou e surgiu um amplo pluralismo, também religioso. Esta situação gerou um crescente número de jovens e adultos que não foram batizados. Por outro lado, apesar dos grandes esforços da Igreja, principalmente através da catequese, grande número de batizados, não chegam a completar a própria iniciação à vida cristã, dando margem a uma verdadeira multidão de batizados não evangelizados.
Não podemos esquecer a realidade do grande número de batizados e fiéis na Igreja Católica, para os quais viver a fé nesse mundo em mudança torna-se um constante desafio. Esses fiéis sentem a urgência de um processo complementar de Iniciação, pois se vêem sem o apoio da família e da sociedade cristã, e sem condições de darem para si e para os outros as razões da sua fé, esperança e amor.
O DA em seu artigo 294 noz diz: “Propomos que o processo catequético de formação adotado pela Igreja para a iniciação cristã seja assumido em todo o Continente como a maneira ordinária e indispensável de introdução na vida cristã e como a catequese básica e fundamental. Depois, virá a catequese permanente que continua o processo de amadurecimento da fé, na qual se deve incorporar um discernimento vocacional e a iluminação para projetos pessoais de vida”.
Trata-se, pois, de uma retomada da grande prática da iniciação cristã como processo profundo de inserção na vida cristã, implicando na participação de muitos agentes de pastoral. Dentro desse processo a catequese não realiza apenas mudanças metodológicas, mas reveste-se de um verdadeiro e novo paradigma.
O Catecismo da Igreja Católica afirma que o homem é capaz de Deus, logo em seu primeiro capítulo: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus, e Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar.”
Quem chega à idade adulta com essas indagações precisa de mais que uma síntese doutrinal. Traz toda uma vida cheia de experiências, perplexidades, alegrias e decepções. E aí não basta estudar o cristianismo. O adulto cheio de perguntas quer descobrir sentido na vida, nos seus relacionamentos, no mistério de Deus, já percebido através da Criação. Torna-se necessário um verdadeiro mergulho no mistério, com uma experiência cada vez mais profunda de diversas dimensões da vida cristã. E isso não se faz num cursinho rápido e nem mesmo numa catequese isolada de outros aspectos da vida eclesial. Não se trata de “aprender coisas”, trata-se de adesão consciente a um projeto de vida.
Jesus evangelizou os adultos e abençoou as crianças. Nós muitas vezes fazemos o contrário. As crianças, é claro, sempre serão bem-vindas e têm todo o direito de viver a experiência do amor de Deus. Mas adultos que vão descobrindo o que, sem perceber, seu coração sempre buscou, precisam de um processo bem vivido de iniciação. Uma Igreja em estado permanente de missão tem que responder a essa necessidade.
Devemos apresentar aos iniciantes algo que nos é precioso, que transformou de forma grandiosa nossa vida. Deus nos deu algo muito bom. Devemos compartilhar essa dádiva e quem a recebe tem todo o direito de conhecer esse projeto tão animador que Jesus nos apresenta.
“A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e pelo ódio. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DA 29).
Eugenio Bei
Coordenador Geral da Catequese
Moderador do CPP
Fonte: Iniciação à Vida Cristã (Estudos da CNBB 97)
|