SAGRADA FAMÍLIA: JESUS, MARIA E JOSÉ.  


   A festa da Sagrada Família é relativamente recente, no ano de 1921, foi determinada pelo Papa Bento XV, que lhe fixou como dia de celebração o Domingo dentro da oitava da Epifania. Mais tarde, baseado nas Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário que concretizaram as diretrizes do Concílio Vaticano II, e por decisão da CNBB confirmada pela Sé Apostólica, no Brasil, a Festa da Sagrada Família passou a ser celebrada na oitava do Natal, de forma que, caso não haja domingo neste período, seja celebrada no dia 30 de dezembro.
              Mesmo com a pouca informação oferecida pelos Evangelhos, dá para se ter uma idéia de como era a família de Jesus. Certamente como toda família de hebreus, era uma família alicerçada sobre uma fé profunda, que observa as leis da antiga aliança, pautada pelos valores propostos pelos profetas, pelos livros sapienciais e pelas Leis de Moisés. Maria e José eram pessoas profundamente tementes a Deus, abertos completamente a misericórdia de Deus Pai. Constituíam uma família simples que viveu dentro do contexto cultural de seu tempo, marcada mais por acontecimentos comuns que extraordinários. O episódio da ida de Jesus ao Templo aos 12 anos de idade (Lc 2, 41-52), embora antecipada em um ano, mostra um costume daquela sociedade, que dá bem a medida da obediência à Lei e da contingência cultural e social da Sagrada Família. A narrativa nos mostra ainda a comunhão daquela família. Depois de haver se perdido do filho, os pais o buscam com sofreguidão como fazem todos os pais cientes de seu dever e, findo esse desencontro, Jesus volta com seus pais para a sua casa, manifestando a sua obediência aos pais terrenos, embora a sua obediência maior se prenda à vontade do Pai do Céu.
               Exatamente por ser uma “família comum”, que agia como qualquer outra família da época tinha que agir, e que levava esta ação às últimas conseqüências, é que a Família de Nazaré deve ser referência às famílias em todas as épocas. Deus escolheu uma família humana para se encarnar e participar diretamente da história do homem, com este gesto valorizou ainda mais a família, santificando-a, já que santidade é acolhimento do divino na própria vida quotidiana, é um ideal a se encarnar e viver, fazendo de Jesus o centro da vida familiar e cultivando as virtudes que sua Palavra propõe.  
              Partindo da experiência da Família de Nazaré, paradigma de família-comunidade de pessoas, que sempre superou as dificuldades, como é exemplo marcante a fuga de José, Maria e o menino Jesus para o Egito (cf. Mt 2, 13-15), as famílias hoje são exortadas a superarem as dificuldades tal como eles fizeram.A experiência da família do Salvador é força e incentivo para os pais tomarem consciência da sua missão, de que não são donos dos filhos, que devem acolhê-los como um dom que Deus confia à sua guarda e acompanhá-los com delicadeza, respeitando o projeto que Deus tem para cada um, educando-os e seguindo-os muito de perto ajudam na realização desse projeto, que designamos por “vocação”. Nesta mesma esteira, tendo em vista a situação das famílias hoje, o papel do perdão na vida familiar, realidade muito presente no agir do próprio Jesus, é fundamental na superação das crises familiares. Com o perdão se reabilita o outro, permitindo que se abra para uma nova vida, longe do isolamento e da auto-suficiência, abrindo espaço para que o Cristo nele habite.
               Para além desta finalidade endógena da família que envolve a relação marido-esposa, esposa-marido, pais-filhos e filhos-pais, a qual deve ser permeada de respeito pelos direitos e funções de cada um, de delicadeza no trato, dos deveres que brotam do amor, temos outra finalidade que nasce da situação da família no mundo, que em suma é a afirmação e a defesa da importância da família como realidade básica para o desenvolvimento da personalidade humana e para o futuro da sociedade. Esta finalidade é a que visa por em prática os objetivos de construir uma sociedade como grande família humana, e que, de alguma forma, encontra-se nas palavras de Sua Santidade Bento XVI, pronunciadas em Sidney, em 20 de Junho de 2008: “empenho e esforço em favor de uma nova geração capaz de edificar um mundo onde a vida seja acolhida, respeitada e cuidada com atenção. É também esforço e empenho para fazer possível uma nova época em que o amor seja puro e fiel e irradie alegria e beleza”. 
               A festa da Sagrada Família, que este ano comemora-se no dia 27 de Dezembro, é a oportunidade para pais, mães e filhos olharem com cuidado a fim de ver a real situação de cada família, julgar esta situação a partir dos valores do Evangelho, e agir como discípulo e missionário proclamando a todo pulmão o direito da família de ser o coração da sociedade, promovendo uma cultura cristã de família como santuário da vida e do amor, e como núcleo indispensável para que cada pessoa possa ser amada por si mesma e aprenda a doar-se e a amar. E, para tanto, invocar com fé e confiança a proteção e a direção da Sagrada Família de Nazaré.    
Sagrada Família de Nazaré: Ensina-nos o recolhimento, a interioridade, Dá-nos a disposição de escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres; ensina-nos a necessidade do trabalho, da preparação, do estudo, da vida pessoal interior, da oração, que Deus vê em segredo. Ensina-nos o que é a família, a sua comunhão de amor, a sua beleza simples e austera, o seu caráter sagrado e inviolável. Amém.  (Papa Paulo VI).
por  Pedro Luiz de Araújo