O MISTÉRIO PASCAL
“Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o puseram” (Mc 16, 6b.).
Celebramos e comemoramos a maior de todas as festas cristãs: a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo! Nós a comemoramos uma vez por ano e a celebramos cada Domingo como o Dia do Senhor, “Eis o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e Nele exultemos”! (Sl 117, 24). Com o Mistério Pascal de Cristo este Dia se eterniza. A Páscoa do Senhor Jesus, é a nossa Páscoa! Ela está no centro do Ano Litúrgico; preparada pelo tempo da Quaresma, culmina na Semana Santa e se desenvolve ao longo da cinquentena Pascal.
“Pois ainda não tinham compreendido que conforme a Escritura, ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 9).
A Revelação do Mistério Pascal tem seu fundamento nas Sagradas Escrituras no Antigo e Novo Testamento. O Deus único e verdadeiro, buscando e preparando a salvação de toda a humanidade revelou-se ao povo escolhido com palavras e ações. Na Sagrada Escritura o Antigo Testamento tem a finalidade de preparar a vinda do Messias, redentor de todos os homens. Por outro lado, no Novo Testamento a instauração do Reino de Deus se realiza no Mistério Pascal, ou seja, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. Dv 3).
Conhecer a origem da Páscoa é de fundamental importância.
Etimologicamente a palavra Páscoa, significa passagem. A origem da festa está na história do Povo “escolhido”, o Povo de Israel. A atividade agrícola e o cuidado com o rebanho era de total importância, pois esta era basicamente a forma de subsistência deste povo. Portanto, dependiam da natureza e de seus fenômenos para cultivarem a terra e dar pastagem ao rebanho. Assim, os patriarcas celebravam com alegria a festa do Pesah a passagem da estação climática do inverno (morte) para a primavera (vida). A Páscoa dos judeus é celebrada no dia 14 de Nisan no primeiro mês da primavera (cf. Ex 12, 1-3). É uma festa familiar. Os preparativos para festa consistiam em oferecer como sacrifício imolado um animal como holocausto (cf. Ex 12, 1-14. 21-28). O ritual prescrito por Deus a Moisés e a Aarão foi sendo transmitido de geração a geração (cf. Ex 12, 43-51).
Mais tarde com o desenvolvimento da Ação Reveladora de um Deus criador e providente, o povo experimenta um progresso e desenvolvimento também nas festas (cf. Ex 23 14-19). O significado da festa progrediu; o povo escravo no Egito pelo poder do faraó experimenta a força libertadora de Iahweh, Deus de Israel que liberta o povo da escravidão do Egito e os faz passar a pé enxuto pelo Mar Vermelho (cf. Ex 13).
Na dinâmica da cultura religiosa judaica encontramos outras festas, vividas sempre em família; os Ázimos (que foi unida à Páscoa depois da reforma de Josias – cf. 2Rs 22, 23; Lc 22, 1), o Yom kippur (a festa do dia da Expiação-perdão), as Tendas (porque Deus estava com eles, enquanto habitavam no deserto em cabanas), o Pentecostes (a festa das semanas e da renovação da Aliança – cf. At 2, 1) etc. Entretanto, a Páscoa é a mais importante de todas as festas. Os judeus subiam a Jerusalém para celebrarem a Páscoa (cf. Jo 11, 55-56), Jesus como um judeu temente a Deus e ensinado por seus pais, também subia todos os anos para celebrar a grande festa (cf. Lc 2, 41-43).
A Ação salvadora de Iahweh não parou com o povo de Israel, libertando-o escravidão do Egito com mão forte e braço estendido, realizando milagres e prodígios, pois, estavam esperando o Messias. O ungido, o enviado do Senhor, o rei de Israel. O Messias veio ao mundo, mas, não apenas para libertar o povo de Israel da tirania dos romanos, como esperavam o Sinédrio com os Sumos-Sacerdotes, Anciãos, Chefes da Lei, Escribas e Fariseus (cf. Lc 22, 66-71). Deus enviou o seu único filho para que quem nele creia seja salvo.
A Páscoa continuou seu caminho de desenvolvimento; a passagem é agora da escravidão do pecado para a liberdade das trevas à luz, e da passagem da morte para a vida. O Cristo foi enviado por Deus, como Cordeiro sem mancha que tira o pecado do mundo, anunciou João Batista (cf. Jo 1,29). O sacrifício, outrora oferecido; um animal sem defeito, que aplacaria a ira de Deus ou que levaria para o deserto os pecados do povo, passa a ser agora realizado pelo Filho único de Deus, que carregando sobre si os pecados de todos os homens, se entrega livremente na Cruz. O seu Corpo e o seu Sangue por nós oferecido. O sacrifício único da Nova e Eterna Aliança para remissão dos pecados (cf. Mt 26, 26-29).
A Igreja, dizem os especialistas, na manhã do seu nascimento grita através de Pedro, o que a pouco acabara de acontecer; Jesus o Crucificado, Ressuscitou e nós somos testemunhas (cf. At 2, 14-36). Os cristãos e a Igreja nascem por este fato e há a mais de dois mil anos vive dele.
Os cristãos católicos são congregados no Pai pela Igreja, ela relembrando os Mistérios da Redenção, possibilita aos fiéis as riquezas do tesouro do Depósito Revelado. A Igreja no seu poder santificador e dos méritos do seu Senhor torna presente os Mistérios da Redenção em todo o tempo, para que os fiéis entrem em contato com eles e sejam repletos pela graça da salvação (cf. SC 102). É através da Liturgia principalmente no divino Sacrifício da Eucaristia, que se exerce a obra da Redenção.
Na noite da quinta-feira Santa somos introduzidos no Tríduo Pascal (quinta, sexta e sábado). A Escritura já nos diz que “Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai”. A Igreja celebra a instituição da Eucaristia, o nosso Senhor Jesus Cristo entrega o seu corpo e sangue, alma e divindade, verdadeira comida e bebida, alimento salutar (que salva), Pão da Vida Eterna. A Ceia sendo ela Pascal ou de Despedida, antecipa o gesto fundamental e ao mesmo tempo central da natureza de Deus. Ele é Amor. No Evangelho de são João a missão de Jesus Cristo o Filho de Deus é a de mostrar na sua pessoa (cf. Jo 14, 9-11; Jo 17, 21) quem é o Pai (cf. 1Jo 4,8) por isso dirá “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cf. Jo 13, 1 b. 34-35).
Na sexta-feira Santa escutamos um forte grito: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46) Jesus é condenado na Cruz e sofre uma morte ignominiosa. O inocente (cf. Lc 23, 13-15), o justo é crucificado pelos injustos. Levantaram falso testemunho contra ele (cf. Mc 14, 55-59), calado não abriu a boca como um cordeiro levado ao matadouro (cf. Is 53, 1-7). Qual o motivo de sua condenação? Por ele ter feito o bem entre os homens, por ter falado a verdade abertamente e ensinado nas Sinagogas (cf. Jo 18, 20-24). Estavam com Jesus no caminho para crucifixição homens e mulheres que se encontraram com ele (cf. Lc 23, 26-32), pessoas que foram tocadas na sua existência pelo Anúncio do Reino de Deus. Crucificado entre malfeitores, dois ladrões, ele busca salvar os perdidos até o último suspiro, instaurando um Reino de justiça (cf. Lc 23, 42-43.47).
No sábado Santo, somos envolvidos por um grande silêncio que deve prorromper todo o mundo. O grão de trigo morre para produzir muitos frutos (cf. Jo 12, 24). O Nosso Senhor Jesus Cristo desce a mansão dos mortos, resgatando todos os filhos de Adão. Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte passou a todos os homens. Por conseguinte, assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou pra todos os homens justificação que traz a vida (cf. Rm 5, 12.18). Foi estabelecido o julgamento, o príncipe deste mundo foi lançado para baixo (cf. Jo 12, 31). Depois de descer aos infernos, o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, trazendo a Cruz junto de si, abre o Céu para os que estavam mortos e separados de Deus.
Oh Feliz culpa que mereceu tão grande Redentor, Oh Feliz culpa, nos dirá o canto do Pregão Pascal na Vigília do sábado Santo
No primeiro Dia da semana (Domingo), as mulheres seguidas por dois discípulos, foram até o sepulcro e o encontraram vazio (cf. Jo 20, 1-3). Talvez tivessem roubado o corpo (cf. Mt 28, 11-13). Mas, o Anjo foi ao encontro das mulheres e exclamou: Ele não está aqui, pois Ressuscitou, conforme havia dito (Mt 28, 5b). Será no encontro com o Ressuscitado que as mulheres e os discípulos verão e crerão (cf. Jo 28, 6-10. 17-18). Deus realizou o que havia antes prometido, suscitar uma força de salvação, pela remissão dos pecados (cf. Lc 1, 67-79). O encontro com Jesus gera a necessidade de transmitir o conhecimento da salvação que ele nos trouxe.
Durante os cinqüenta dias que sucedem o dia da Páscoa, acompanharemos através dos Evangelhos as aparições do Senhor Ressuscitado, que se colocando no meio dos discípulos e de outros, concede o Espírito Santo e a Paz como fruto da Ressurreição (cf. Jo 20, 19-31), além disso, os envia como testemunhas do Mistério do seu Amor. Estas manifestações de Jesus depois da morte, são fundamentais para a fé dos discípulos e para a fé da Igreja. Tal fato quer nos lembrar que o Mistério Pascal não foi um acontecimento que ficou no passado, pois, Jesus Cristo Ressuscitado continua presente na vida e na história de todos os homens. Afinal foi ele mesmo que aparecendo Ressuscitado promete aos discípulos estar entre eles até a consumação dos tempos, ou seja, até a Parusia (cf. Mt 28, 20b). A experiência da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se realiza na vida das primeiras testemunhas, fundam a nossa própria experiência. Desta forma, a fé que professamos e testemunhamos da vitória de Cristo sobre o pecado e morte é uma realidade atual, não está para alguém experimentar apenas depois da morte. É possível possuir a Vida Eterna no hoje da minha história, pois quem Crê possui Vida Eterna (Jo 6, 40).
O que nos resta fazer, pois, é Exultar de Alegria, Beracah, fazer Eucaristia no sentido próprio da Palavra, e entregar-nos completamente ao Amor totalmente gratuito de Deus por todos nós, homens e mulheres fracos na fé.
Desejo que a experiência da Ressurreição de Cristo possa crescer e se desenvolver a cada dia na vida de todos vocês. Deus vos abençoe!!!
|