Santo Antonio, O Santo.  Casamenteiro?


“O estrume reunido em casa exala mau cheiro; disperso, fecunda a terra. Assim acontece com as riquezas: devem ser dispersas, isto é, distribuídas e restituídas aos pobres, que são seus donos, e assim hão de fecundar a terra do espírito e fazê-la frutificar”.
“Só te pertence o que podes levar contigo na morte”.
Pensamentos de Santo Antonio in http://www.ofmsantoantonio.org, acessado em 29/06/2009 às 12:2800hs

   Pela imagem construída da figura de Santo Antonio, embora verdadeiras, fica difícil acreditar que as palavras acima são de sua autoria.
    Nosso santo nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto de 1195, recebeu na pia batismal, na catedral de Lisboa, o nome de Fernando, que significa “ousado campeão da paz”. A casa onde nasceu Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo fica ao oeste da Sé de Lisboa, muito perto do portal principal. Certamente tinha outros irmãos, entretanto somente temos conhecimento seguro de uma irmã, chamada Maria e que morreu em 1235 no mosteiro de São Miguel em Lisboa como cônega. Ela ainda vivia quando seu irmão, Santo Antônio, foi canonizado em 30 de maio de 1232. Logo cedo, Fernando foi para a escola onde seu tio era o diretor. Por ser filho do governador, vivia no luxo e na regalia, tinha tudo para buscar a vida e o ideal dos ricos de seu tempo, mas com o tempo optou pela vida religiosa, simples e humilde.
    Foi para o mosteiro de São Vicente de Fora, em 1210, com a idade de 15 anos. Esta atitude não teve a aprovação de seus pais e parentes que queriam que ele seguisse uma outra carreira que lhe desse glória, poder e riqueza, porém  o chamamento de Deus foi mais forte. A vida monástica de Antônio não foi nada fácil, tendo sofrido grande interferência de seus parentes. Ao contrário, Antonio queria uma vida que correspondesse às exigências do Evangelho; assim, em 1212, foi transferido para o mosteiro de Santa Cruz, e lá encontrou o ambiente propício para seu crescimento humano e espiritual. Dos Sermões que nos deixou, concluiu-se que Antônio aproveitou intensamente as possibilidades de estudo que lhe foram oferecidas em Coimbra. Dedicou-se em especial ao estudo das Sagradas Escrituras, encontrando para isso mestres dedicados e um mosteiro com uma biblioteca bem provida.
   Mas a vida no mosteiro de Santa Cruz estava limitada demais para alguém que se caracteriza pela “inquietação evangélica”. O sopro renovador e missionário do movimento religioso iniciado por Francisco de Assis e que chega a Portugal, mostrou um modo de vida marcado pela pobreza, simplicidade e proximidade do povo, o qual transformou definitivamente a vida do nosso Santo, principalmente o episódio ocorrido em 1919, onde São Francisco enviou em missão cinco frades, Berardo, Pedro, Oto, Adjuto e Acúrsio para anunciar o evangelho entre os sarracenos em Servilha, Espanha, que estava dominada pelos muçulmanos. Sendo condenados à morte, conseguiram indulto de liberdade e foram expulsos do país, porém o ardor missionário os levou a pregar no Marrocos, onde martirizados, foram decapitados no dia 16 de janeiro de 1220, e seus corpos foram sepultados no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde morava Santo Antônio.
   Todos esses acontecimentos e a proposta de vida evangélica lançada por Francisco de Assis a toda a Igreja, fez com que Fernando pedisse para sair do mosteiro e ir para a Ordem dos Frades Menores, onde recebeu como frade menor o nome de Antônio. Este costume de mudar o nome tem fundamento bíblico e quer significar começo de uma nova vida.
   Logo Antonio manifestou o desejo de ser missionário no Marrocos, mostrando quão profundo penetrou o exemplo dos cinco mártires franciscanos. Somente no final de 1220 recebeu a licença de seus superiores e partiu com o frade Filipe para o Marrocos, lá foi acometido de uma doença febril por um longo período no ano de 1221. Em seu regresso à terra natal, mesmo não sendo tempo de tempestades, um forte vento arrastou o barco onde viajava para a costa da Sicília, Itália, ao invés de ir para Espanha ou Portugal. Acolhido pelos frades em Messina, na Sicília, foi compreendendo os caminhos misteriosos da vontade de Deus e humildemente submetendo-se à Sua vontade.
   Participando, em Assis, do Capítulo Geral da Ordem, no fim de maio de 1221, conheceu São Francisco. Após o Capitulo é designado para morar no Conventinho de Monte Paolo, onde viveu uma vida de recolhimento, assumindo ainda, as tarefas de lavar a louça e limpar o chão. Neste contexto é convocado para receber a ordenação sacerdotal, em 1222, nesta festa de ordenação, na hora da refeição festiva, é convocado pelo superior para fazer uma pregação improvisada. Sua pregação impressionou a todos e a partir daí, foi designado para a atividade do apostolado e da pregação.
     Santo Antônio viveu comprometido só com o Evangelho. Foi o que ele buscou viver entre os franciscanos que tinham sua Regra de vida que começava assim: “A Regra e a vida dos frades menores é viver o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Quando uma pessoa tem compromisso só com o Evangelho, torna-se livre para anunciar o que Deus inspira e denunciar tudo o que está contra a Sua vontade”. Por isso, Santo Antônio foi sempre uma pedra de tropeço para quem andasse no caminho da injustiça e da opressão aos pobres. O pregador, pleno da força da palavra profética de Deus, atacava publicamente as injustiças e as desordens sociais. Contra os que exploravam os pobres sempre teve palavras claras. Num de seus sermões afirma: “Quem aperta uma pessoa pela goela, tira-lhe a voz e a vida. As posses do pobre são a vida dele, e como a vida vive do sangue, ele deve viver disso. Se tirares aos pobres seus parcos haveres, estarás a sugar o sangue dele, estarás a sufocá-lo, e enfim tu mesmo serás sufocado pelo diabo”.
   Outro fato que devemos conhecer é que Santo Antônio conseguiu a anulação de uma lei que favorecia os agiotas da época, pois punha na prisão perpétua quem não pudesse pagar suas dívidas. Também os fiadores sofriam o mesmo castigo. Nosso Santo consegue anular essa lei injusta e no dia 15 de março de 1231. Como podemos constatar, Santo Antônio foi grande defensor dos pobres usando a arma da Palavra de Deus e o testemunho de sua vida. A palavra profética de Santo Antonio não poupou nem mesmo o clero da época, neste meio não eram poucos os que relaxavam em suas obrigações pastorais e o mau exemplo de vida escandalizava os fiéis. Falava Santo Antônio: “Os sacerdotes da Igreja não possuem a luz da sabedoria nem tampouco as verdadeiras virtudes no modo de agir, de maneira que o diabo dispersa as ovelhas e o ladrão, isto é, o herege, as arrebata para si”. O clero ganancioso e simonista, isto é, que ganhava dinheiro vendendo as coisas sagradas também foi alvo das palavras do Santo. Como se pode notar a palavra de Santo Antônio tem força por causa do testemunho de vida que dá, e também porque a crítica que faz quer ser um apelo à conversão de todos que estão errados, tanto os de dentro da Igreja como os de fora dela.
   Santo Antônio também foi mestre da oração, dirigida a todos, mas em especial para as pessoas simples com quem falava e partilhava sua missão de pregador do Evangelho. Por isso, ao se referir à oração, ele afirma: “Se alguém quiser rezar ou meditar melhor, procure então representar para si em imagens claras a humanidade de Cristo, seu nascimento, sua paixão e sua ressurreição”. E continua: “Esta maneira de meditar costuma dar aos pobres em espírito e aos filhos de Deus mais simples uma felicidade tanto maior no amor, quanto mais se aproximarem da humanidade Dele”. Dizia mais: “Podemos rezar de três modos: com o coração, com a boca e com as mãos”. Rezar “com o coração” se dá quando o orante se reconhece diante de Deus na sua pequenez, sua pobreza e reza na humildade, por sua vez “a boca fala daquilo que o coração está cheio”. Mas o coração que acolhe a misericórdia e a boca que a proclama leva a pessoa a agir bem, como dizia o próprio Jesus: “Que a vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e louvem vosso Pai que está no céu” (Mt 5,16).
   A sabedoria de Santo Antônio proclamou com palavras belíssimas o mistério da Santíssima Trindade: “Na Trindade se encontra a origem suprema de todas as coisas e a beleza perfeitíssima e o deleite beatíssimo. A origem suprema é Deus Pai, de quem procedem todas as coisas, de quem provêm o Filho e o Espírito Santo. A beleza perfeitíssima é o Filho, verdade do Pai, que lhe não é dessemelhante em ponto algum. O deleite beatíssimo e a soberana bondade é o Espírito Santo, dom do Pai e do Filho”.
   Faz parte ainda, da essência da vida do Santo, o seu amor imenso à Virgem Maria. Ele não cansou de pedir que ela ajudasse aos cristãos a anunciar aquilo que a própria Maria proclamou no Magnificat: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).
   Por óbvio, que se poderia falar muitíssimo mais sobre a vida deste incansável Santo. Que viveu a radicalidade do Evangelho, o Serviço e o Amor ao próximo e morreu a caminho de Pádua, em 13 de junho de 1231, sendo canonizado há apenas 11 meses de sua morte, em 1231, pelo Papa Gregório IX. Por isso tudo, cabe questionar se não é muito pouco chamar este grande santo simplesmente de “Santo Casamenteiro”. 

Que Deus, pela intercessão de Santo Antonio, abençoe a todas as famílias da comunidade, e faça de cada um de seus membros discípulos e missionários comprometidos, como nosso Padroeiro,  com a causa Evangelho.

 

Pedro Luiz de Araújo
Coordenador da Pastoral Familiar