A Nossa Ressurreição na morte

Dois de novembro é “Finados”, dia em que os cristãos rezam pelas almas dos que morreram.Sabemos, pela fé que nos foi dada, que a vida não acaba, mas apenas muda de figura com a morte.
A questão da ressurreição não é uma questão pacifica e clara para a maioria dos homens do nosso tempo. Há quem veja na esperança da ressurreição apenas um “ópio do povo”, destinado a adormecer a justa vontade de lutar pela construção de um mundo mais justo; há quem veja na ressurreição uma ilusão onde o homem projeta os seus desejos insatisfeitos...
Convencidos de que a vida se resume aos 70/80 anos que vivemos neste mundo, muitos dos nossos contemporâneos constroem a sua existência tendo apenas em conta os valores deste mundo, sem quaisquer horizontes futuros. Que sentido é que isto faz, na perspectiva da nossa fé?
Quem acredita na ressurreição não pode deixar-se paralisar pelo medo (muitas vezes é o medo que limita a nossa existência e nos impede de defender os valores em que acreditamos)... Pode comprometer-se na luta pela justiça e pela verdade, na certeza de que as forças da morte não o podem vencer e destruir. É essa certeza que animou o testemunho de tantos mártires de ontem e de hoje... É essa certeza que anima a minha luta e que dá força ao meu compromisso?
Para W.Marxsen a ressurreição não é um fato histórico, mas uma interpretação das aparições condicionada pelo horizonte apocalíptico.
Ele era mais radical do que Bultmann, pela sua convicção não se trata da constatação de um fato real, mas de uma interpretação condicionada pela cosmovisão apocalíptica da época. Pertencia a ela a esperança na Ressurreição dos mortos. As aparições reais que os Apóstolos tiveram (tem aspecto histórico e agiriam como um impacto sobre os Apóstolos). O próprio NT mostra como há uma outra possibilidade de interpretação as aparições, não como Ressurreição de Jesus, mas como missão de viver e de pregar a causa de Cristo adiante.
Paulo em (1Cor 9,1) fundamenta seu apostolado no fato de ter visto o Senhor. Os Apóstolos os levaram a refletir após a morte e as aparições de Jesus em duas direções: uma funcional, voltada para o futuro: a missão “A causa de Jesus vai adiante”, pela pregação “Jesus nos atinge hoje”.
Outra voltada para o passado, pessoal: Jesus ressuscitou dos mortos. Essa afirmação esta condicionada pela antropologia judaica, segundo a qual não há vida humana sem corpo. Por isso a insistência maciça de alguns textos em Lucas e João em afirmar a corporalidade do Ressuscitado. “Se a causa de Cristo me atinge, então eu sei: Ele vive, Ele não permaneceu na morte. Ele Ressuscitou”. A preocupação de Marxsen é pastoral: a fé na Ressurreição, diz ele, deve ser uma fé que compreende o que se professa; deve falar à existência concreta e deixar de ser uma informação neutra. Ele viu claramente onde reside o problema: nas aparições que agiram como um impacto sobre os Apóstolos. Os acontecimentos da Páscoa não foram previstos pelos discípulos. Foram fatos que se realizaram antes algo que deve ser interpretado que uma interpretação do significado de Jesus e de sua morte. Ele se deixou ver, ele apareceu. Os Apóstolos tiveram encontros com o Senhor vivendo agora sobre outra forma. O encontro pessoal é muito mais rico que um simples ver (óphte): é comunhão de pessoas, é um estar-ai frente a frente em mútua presença. Os textos do NT deixam claro que pela Ressurreição aconteceu algo em Jesus e que isso provocou a fé nos Apóstolos e não vice-versa.
Através de exegetas católicos sérios que se interessam pela Fé do NT, mas principalmente em ver a gênese desta fé, como deu origem a varias tradições. Evoluindo de elementos cernes até elaborações cada vez mais amplas. Nos atuais textos temos um elemento, é unanimemente afirmado: a Ressurreição não é diretamente um  fato histórico, possível de ser detectado pelo historiador. “É um fato que aconteceu com Jesus, acessível pela fé baseada nos testemunhos dos que viram Jesus depois de ter sido crucificado. Sua nova vida não cai sob categorias biológicas (onde reina a morte), mas pertence já à esfera divina da vida eterna. Por isso o fato – Ressurreição entra na ordem do mistério que rompe as categorias do espaço e do tempo. Seu anúncio só pode ser revelado e se for manifesto dentro da história. São esse modo de existir de Jesus são, determinadas pelo ambiente da época: ele é elevado junto a Deus, está sentado à direita de Deus, é entronizado como Filho de Deus em poder, foi feito Kyrios e Juiz Universal.
Era Deus mesmo corporalmente presente. Por isso, se já em vida ele exprimia a comunhão e a interioridade divina e humana, quanto mais agora pela ressurreição não fora tal capacidade potencializada ao máximo? Desde o primeiro momento ele fora carne nova que ia crescendo em idade e graça até lograr a plenitude pela ressurreição. Por ai, parece-nos podermos afirmar, com boas razões teológicas, a identidade pessoal do corpo de Jesus sárquico com o pneumático. Contudo como sempre insistimos e já o fazia S. Tomás de Aquino: “Ressuscitando, Cristo não retornou à vida comumente conhecida pelos homens. Mas assumiu a vida imortal e conforme com Deus. (Sum. Theol.III, q. 75, a 2).
Contudo o fato decisivo para a fé na Ressurreição é constituído pelas aparições, interpretadas, como vimos, dentro de duas categorias de pensar que estavam à disposição dos discípulos: a apocalíptica e a escatológica. A referência de uma aparição a Tiago fala em favor da credibilidade desse testemunho Paulino, porque o grupo de Tiago (Gal 2,12) se distanciara desconfiado do Evangelho de Paulo acerca da liberdade cristã frente ao culto da Lei do judaísmo bíblico.
O homem quer superar todas as alienações que o afligem como a dor, a frustração, o ódio, o pecado e a morte. Quer plenitude e vida eterna. O princípio-esperança é uma estrutura existencial do ser-homem. “Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom 7,24). Todos os homens sonham com a situação descrita pelo Apocalipse “onde a morte não existira mais, nem mais luto, nem prantos, nem fadiga, porque tudo isto já passou” (21,4). O homem hoje se coloca mais que em outras gerações perguntas radicais acerca de seu futuro. A pergunta que mais lhe interessa não é tanto Quem é o? mas Que será do homem? Que futuro lhe está destinado? . Nietzsche sonhou com o Super-Homem, com um corpo de César e alma de Cristo, um santo de uma espécie nunca dantes existente, capaz de dominar com suma responsabilidade o mundo por ele mesmo criado. A ânsia de realização pessoal e cósmica do homem é sempre frustrada pela morte. Ela é uma barreira para todas as utopias. A Ressurreição não é um fato privado da vida de Jesus. É a realização em sua existência da mensagem de global libertação que ele pregou e prometeu. Ele é a nova humanidade, o novo Adão “no qual todos somos vivificados” (1Cor 15,22). O Reino já está presente em mistério aqui na terra. Chegando o Senhor ele se consumará”, anuncia-nos o Vaticano II (GS n. 39).
Para Paulo, ele afirma por um lado que a ressurreição, conforme a doutrina comum dos judeus, se realizará no fim do mundo com a parusia do Senhor, por outro acentua que o essencial já se realizou nessa vida terrestre pela fé, esperança e batismo; este já nos fez morrer, ressuscitar e estar com Cristo nos céus (Rom 6,1-11; Col 2,12; Ef 2,6). Já agora somos possuidores daquele Espírito que ressuscitou a Jesus dos mortos. “Ele dará também a vida aos nossos corpos mortais” (1Cor 6.14).
As reflexões feitas até aqui evidenciaram que a morte pertence ao próprio conceito de vida terrestre. Esta é sempre vida mortal ou morte vital. Muito antes que tivesse emergido, na evolução, o homem mortal, já mirravam as plantas e morriam os animais. Esta constatação tem sua importância porque a Bíblia e a teologia apresentam a morte como conseqüência do pecado do homem. Paulo o diz claramente: “Através do pecado a morte invadiu o mundo” (Rom 5,12);cf.Gên3). A teologia clássica de Santo Agostinho, sempre ensinou que a morte é um fenômeno natural enquanto a vida biológica vai se desgastando até o homem terminar seus dias. O homem pode integrar a morte na vida. Abraça-la como total despojamento e derradeiro ato de amor como entrega confiante. O santo e o místico, como a história nos mostra, podem de tal modo integrar paradisiacamente a morte no contexto da vida, que não vêem mais nela a ladra traiçoeira da vida, mas a irmã que nos liberta e nos introduz na casa da Vida e do Amor. Então o homem é livre e libertado como um São Francisco. A morte não lhe fará nenhum mal porque é passagem para uma vida mais plena.
Portanto até aqui nas nossas reflexões não inserimos o pensamento da ressurreição, que para a fé cristã não é revivificação do homem-corpo-alma, a superação de todas as alienações que estigmatizam a existência desde o sofrimento, a morte e também o pecado e, por fim, a plena glorificação como divinização do homem pela realidade divina. A Ressurreição é a realização da utopia do Reino de Deus para a situação humana. Daí que para o cristianismo não há mais lugar para uma utopia, mas somente para uma topia: já agora, pelo menos em Jesus Cristo, a utopia de um mundo de total plenitude divino-humano encontrou um topos (lugar). A interpretação da morte por outro lado, que a antropologia moderna elaborou, se coordena bem com o conceito cristão de ressurreição. A morte significa a plenificação da personalidade do homem e de suas capacidades estendidas à dimensão do cosmos total.
O homem verdadeiro, em sua radical patência, é só o homem escatológico. Pela ressurreição o poder-ser do homem-ser se realizou exaustivamente; ele saiu totalmente de sua latência; nele, pois, se revelou o desígnio de Deus sobre a natureza humana, de fazê-la participar de sua divindade com toda a realidade dela, corpo – espírito –aberta  para a totalidade.
Como soam consoladoras as palavras do prefácio na missa do mortos (I) “Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Ó Pai, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada, e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”.      
A certeza da ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos; mas deve ser uma realidade que influência, desde já, a nossa existência terrena. É o horizonte da ressurreição que deve influenciar as nossas opções, os nossos valores, as nossas atitudes; é a certeza da ressurreição que nos dá a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam comecem a desenhar-se desde já.

Diácono José Luiz Silvério